A política de segurança no Brasil, que tem uma das
maiores taxas de homicídios do mundo, está mexendo com a cabeça dos agentes da
Lei. Pesquisa divulgada ontem pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP)
apurou que 15,6% deles já tiveram algum tipo de distúrbio psicológico detectado
por conta do trabalho. Considerando que o país tem um efetivo oficial de 700
mil agentes da lei, aproximadamente, o susto aumenta: são 109 mil afetados,
entre policiais civis, militares, rodoviários, federais, bombeiros e guardas
municipais.
“Enquanto não dermos a devida atenção à realidade
cotidiana do policial, continuaremos vivendo um divórcio entre polícia e
sociedade”, avalia a socióloga Sílvia Ramos, do Centro de Estudos de Segurança
e Cidadania (Cesec), da Universidade Cândido Mendes. “Os resultados são
surpreendentes e preocupantes.”
Os números foram apresentados por Samira Bueno, do
FBSP, Rafael Alcadipani, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e Roberta Novis,
também da FGV. Dos 10.323 agentes ouvidos pela pesquisa, 44,5% trabalham nas
Polícias Militares, 51,8% são pretos e pardos e 85,1%, homens. O Fórum acontece
desde quarta-feira na sede da FGV, no Rio, e termina hoje com a presença do
Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que irá lançar um pacto pela redução
dos homicídios.
O raio X da atuação dos agentes da Lei mostra uma
polícia que tem mais medo de morrer em serviço do que fora dele. Nada menos do
que 75,6% responderam que já foram vítimas de ameaças por seu trabalho e 61%
tiveram colegas vítimas de homicídio em serviço. Entre PMs, este percentual
chega a 73%. Morrer fora do serviço amedronta 29,6% dos policiais, o que
explica o alto índice de agentes que escondem suas fardas antes de deixar o
serviço. Segundo o estudo, 44,3% guardam o uniforme ou o distintivo no trajeto
entre suas casas e o trabalho, e 61,8% evitam usar o transporte público. Para
proteger os familiares, 35,2% não revelam sua profissão a conhecidos, pelo fato
de serem policiais, e 33,6% tiveram pelo menos um parente vítima de violência,
ou ameaçado.
Ms se sentem discriminados
A discriminação citada por Sílvia Ramos, da Cândido Mendes, aparece na pesquisa
mais para quem veste a farda de policial militar. O estudo aponta que 73,8% dos
PMs se sentiram discriminados por serem profissionais de segurança pública,
contra 65,7% da categoria como um todo. E nada menos do que 51% têm receio
sobre como conduzir ações de abordagem, prisão por drogas ou uso da força por
falta de diretrizes claras sobre como tomar tais atitudes. “Estamos acostumados
a dizer que a sociedade teme a polícia por perceber alguns agentes como brutais
e violentos. Mas até agora demos pouca atenção ao que eles pensam e como
vivem”, conclui Sílvia.
‘Droga é um problema de saúde’
Uma das estrelas do Fórum, o Secretário Nacional de
Políticas Sobre Drogas, Vitore Maximiano, defendeu ontem a descriminalização do
usuário de drogas. Durante palestra, Vitore mostrou dados indicando que a
Europa só conseguiu começar a reverter os problemas com usuários, nos anos 80,
quando trocou a política repressiva pela de prevenção. Com números que cruzavam
uso de maconha com taxa de homicídio, deixou claro que a utilização de drogas
não gera comportamento violento — pelo contrário, é justamente a repressão que
leva a este estado.
“Droga é um problema de saúde. Na América do Sul, o
Brasil é o único país que ainda criminaliza o porte. Na França, por exemplo,
40% da população já experimentou maconha, e a taxa de homicídio é de 1,2 por
100 mil. Já na Venezuela, 5,6% da população usou a droga, mas a taxa é de 47
homicídios a cada 100 mil pessoas. Não há correlação evidente entre violência e
consumo”, disse.