Partiu da cela 12 da Penitenciária de
São Vicente 1, no município homônimo de São Paulo, um dos 44 pedidos de
impeachment protocolados na Câmara desde o primeiro mandato da presidenta Dilma
Rouseff, iniciado em 2011. A demanda é uma das dez que continuam “em processamento”,
segundo a Secretaria-Geral da Mesa (SGM) – ou seja, à espera de decisão do
presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), a quem cabe dar encaminhamento ou
arquivar matérias desse tipo. Trata-se do segundo requerimento escrito à mão
(clique para ver a Carta de
impeachment) pelo presidiário João Pedro Boria Caiado de
Castro, 38 anos, condenado a seis anos e 11 meses de detenção por roubo.
O
primeiro, como o Congresso em Foco revelou com
exclusividade em novembro de 2014, foi feito quando
João Pedro ainda estava na Penitenciária Compacta de Potim II, no Bairro das
Correias, em São Paulo. Na ocasião, ele se queixava de violação de direitos
individuais em decorrência das más condições do sistema prisional, e culpava
Dilma e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (SP), pela situação. Agora,
o detento quer responsabilizar a petista por ter sido reeleita com o suposto
emprego de dinheiro desviado da Petrobras.
Por
determinação de Eduardo Cunha, todo e qualquer pedido de impeachment
protocolado em sua gestão só poderá ser liberado à consulta pública pela SGM
depois de uma decisão do deputado. A não ser que o próprio autor libere o
conteúdo antes – caso dos juristas Hélio Bicudo, Miguel Reale Júnior e Janaína
Paschoal, que formalizaram requerimento com
ampla cobertura pela imprensa na última quarta-feira (21), com direito a íntegra disponibilizada
na internet e apoio da oposição.
Diante da
restrição imposta por Cunha, na contramão da Lei de Acesso à
Informação, a reportagem recorreu à Central do Cidadão do
Supremo Tribunal Federal (STF), para onde João Pedro tem encaminhado suas
demandas. E, por fim, conseguiu acesso ao manuscrito – enviado ao STF pelos Correios
– por meio do número do ofício de protocolo (GP-O 12583/2015) fornecido ao site pelo próprio pai do presidiário.
Culpabilidade
Na
“ementa” de seu pedido, João Pedro atribui a Dilma “autoria por negligência e
culpa em sentido estrito, reeleição com verba oriunda da Operação Lava
Jato; atos de reeleição são inerentes ao segundo mandato
– atividade em detrimento do patrimônio nacional”. Como foi escrito à mão, o
pedido de impeachment fica sujeito ao arquivamento sumário, segundo a norma
vigente, devido ao não atendimento dos requisitos formais. O próprio autor da
mensagem reconhece a situação.
“O ora
impetrante encontra-se preso e recolhido, mas ainda possui seus direitos de
cidadão, todavia, em hipossuficiência para cumprir formalidades como
autenticação de assinatura, cópia autenticada de CPF/RG, comprovante de
regularidade com a Justiça Eleitoral. Assim, em homenagem à paridade de armas,
com a devida vênia, vossa excelência poderá oficiar à PGR [Procuradoria-Geral
da República], ou mesmo o corpo jurídico da Casa legislativa, para atuar como
patrono do impetrante, [...] para auxiliar este impetrante a exercer sua
cidadania”, diz trecho da carta – nos moldes da anterior, com texto em letra
cursiva e linguagem formal que sugere certo conhecimento sobre a legislação
aventada para o caso, a Lei 1.079/50 (em
vigor há mais de 60 anos, “define os crimes de responsabilidade e regula o
respectivo processo de julgamento”).
João Pedro
recorre a estudos acadêmicos para fundamentar sua demanda. Para tipificar a
“culpa” da presidenta Dilma, ele menciona trecho da obra Curso de Direito Civil Brasileiro, da premiada jurista
e professora da PUC de São Paulo Maria Helena Diniz, doutora em Teoria Geral do
Direito e Filosofia do Direito. Na sequência, na seção “Dos fatos”, o detento
faz referência àreportagem publicada
pela revista IstoÉ em 28 de agosto com o
título “Gilmar Mendes: o ministro que tira o sono de Dilma”.
No texto, a revista dá
combustível para a insatisfação de João Pedro ao dar detalhes sobre as “fartas
as denúncias sobre o abuso de poder econômico e político na campanha à
reeleição de Dilma Rousseff” – objeto do processo em curso contra a chapa
presidencial vencedora em 2014 no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). “De acordo
com relatório técnico do TSE, o PT recebeu, de 2010 a 2014, R$ 172 milhões de
empresas envolvidas no esquema do Petrolão. Além dos repasses do partido, a
campanha de Dilma conseguiu R$ 47,5 milhões das empreiteiras investigadas”, diz
trecho da reportagem, mencionado na carta do presidiário.
“Destarte, se a presidente, em
sua reeleição, usou, por negligência, dinheiro oriundo, no mínimo, de sonegação
fiscal, temos caracterizado o crime de responsabilidade contra a guarda e legal
emprego dos dinheiros públicos. Pois, se usou dinheiro sem origem, incorreu em
prejuízo ao patrimônio nacional”, argumenta João Pedro.
Desconhecimento
Às voltas
com outras complicações na Justiça, João Pedro tenta matar o tempo na cadeia,
entre outros afazeres, lendo livros sobre as mais variadas vertentes do
Direito. O exercício da leitura, segundo o chefe da Central do Cidadão do STF,
Marcos Alegre, produz o que ele chama de “escriba de cadeia”. Devido ao tempo
de sobra na prisão, explica, alguns presos consomem “livros de jurisprudência”
e adquirem o conhecimento suficiente para elaborar seus próprios pedidos,
imersos que estão no universo jurídico de sentenças e habeas corpus. No caso de João, diz, provavelmente se
trata de um “autodidata”.
Mas,
apesar de demonstrar algum conhecimento sobre o conjunto de leis relativas a
impeachment, o detento compõe o grupo majoritário de cidadãos que pecam ao
não dominar a legislação correspondente. E, como a maioria, o provável destino
de sua iniciativa será o arquivo.
O pedido de João Pedro foi
protocolado no último dia 14 na Câmara. Depois desse requerimento, apenas um
chegou à Casa até o momento. Trata-se da denúncia em que o advogado Luís Carlos
Crema, “pela robustez dos fatos, das provas e dos fundamentos jurídicos”,
pretende enquadrar Dilma na esteira da rejeição, por parte do Tribunal de
Contas da União, das contas presidenciais relativas a 2014 e 2015 – com
destaque para as chamadas “pedaladas fiscais”, espécie de manobra contábil do
governo para alcançar meta de superávit (economia para pagamento dos juros da
dívida pública).
O pedido de Crema, a exemplo
daquele protocolado pelos juristas, também acusa Dilma de ter assinado decretos
que desrespeitaram a Lei Orçamentária Anual e a Constituição e cita a questão
da Lava Jato. E, como o requerimento de Bicudo, Reale e Paschoal, tem mais
chances de ser acatado por Cunha, uma vez que dispõe da fundamentação jurídica
que João Pedro não conseguiu apresentar.
Dos 44 pedidos de impeachment
da era Dilma, 34 já foram arquivados até esta terça-feira (27). Segundo
especialistas, estão entre as razões que levaram ao arquivamento das peças a
ausência de provas e testemunhas de que Dilma tenha cometido ilícitos e o fato
de que o eventual crime de responsabilidade fiscal tenha sido cometido no
mandato presidenciais anterior, o que a livraria da cassação. Além de Cunha, já
mandaram pedidos para a gaveta os ex-presidentes da Câmara Henrique Eduardo
Alves (11 peças) e Marco Maia (três).
Numerosos
e inusitados
O Congresso em Foco acompanha desde outubro de 2012
os pedidos de
impeachmentprotocolados na Câmara contra Dilma, então em
seu segundo ano de mandato – todos foram arquivados por
falta de embasamento legal. Àquela época, Dilma ainda gozava de certa aprovação
popular (chegou a 65% em março de 2013), e sequer poderia imaginar que
enfrentaria as manifestações de junho de 2013 e as seguintes, quando viu a
aprovação ao seu governo despencar para 30% e, nas medições posteriores, para
menos de 10%. Com a primeira reportagem sobre o assunto, o site mostrou que, tanto quanto numerosos, os
pedidos são inusitados.