As manifestações contra o governo, em 26 Estados e no
Distrito Federal, acenderam o sinal amarelo no Palácio do Planalto. A avaliação
foi a de que os protestos conseguiram "colar" a imagem da presidente
Dilma Rousseff e de seu padrinho, Luiz Inácio Lula da Silva, ao escândalo de
corrupção da Petrobrás, principalmente na classe média. O governo acredita, ainda,
que o PSDB "partidarizou" os movimentos, na tentativa de fazer
avançar a tese do impeachment.
Em reunião com ministros que
compõem a coordenação política, à noite, Dilma disse considerar que a
população, embora insatisfeita, não vai apoiar iniciativas
"golpistas". Mesmo assim, o diagnóstico foi o de que o governo
enfrenta muitas dificuldades para vencer a batalha da comunicação e precisa
tomar medidas de impacto para mostrar que entende o recado das ruas. Uma
reforma administrativa, com corte de ministérios, está em estudo, mas Dilma
ainda não bateu o martelo sobre o novo desenho da equipe.
Chamaram a atenção de ministros,
nas manifestações de ontem, os bonecos de Dilma vestida de "irmã
metralha" e do ex-presidente Lula com roupa de presidiário e a inscrição
13-171. Todos ali ficaram convencidos de que o desgaste do PT grudou não só em
Lula como também em Dilma. Um auxiliar da presidente lembrou que o boneco de
Lula custou caro (cerca de R$ 12 mil) e pode ter sido pago pela oposição.
A percepção do núcleo político
foi a de que Dilma não conseguiu, até agora, transmitir a ideia de que a
Operação Lava Jato, da Polícia Federal - responsável por desvendar o esquema de
corrupção na Petrobrás - vai passar o País a limpo. Ao contrário: os protestos
mostraram que a operação da Polícia Federal nocauteou o governo, Lula e o PT.O
senador Aécio Neves (MG), presidente do PSDB e candidato derrotado na disputa
de 2014, foi muito criticado na reunião do Palácio da Alvorada. Ministros
disseram que Aécio e os senadores tucanos Aloizio Nunes Ferreira (SP) e José
Serra (SP) tentaram "faturar" em cima das manifestações.
Para evitar
"panelaços" e esvaziar a repercussão dos protestos, todos foram
orientados a não dar entrevistas após o encontro com Dilma, que durou quase
três horas. Coube ao titular de Comunicação Social, Edinho Silva, emitir um
curto comentário sobre os atos.
"As manifestações de hoje
(ontem) atestam a normalidade democrática no Brasil", disse Silva. "O
governo mantém sua agenda de trabalho para, em breve, o País voltar a crescer,
gerando emprego e distribuindo renda."No início da reunião, ministros
avaliaram que os protestos deste domingo foram menores do que os ocorridos em
abril. A Polícia Militar, porém, divulgou números indicando que o movimento foi
maior.
Dilma reunirá nesta
segunda-feira o vice Michel Temer e a coordenação política ampliada de governo
para analisar o cenário no "day after" das manifestações. A ordem no
Planalto é bater na tecla de que o governo tem "humildade" para admitir
os erros. No diagnóstico de ministros ouvidos pelo Estado, a crise arrefeceu,
mas está longe de acabar e o governo precisa tomar cuidado para não demonstrar
soberba num momento em que os problemas na política prejudicam ainda mais a
economia. Desta vez, porém, as manifestações deixaram de lado o ajuste fiscal.
Para o núcleo político do
Planalto, Dilma acertou, nos últimos dias, ao sair do gabinete para defender
sua gestão, apontando os riscos de uma ruptura nas regras do jogo. Com a
popularidade em queda livre, Dilma só ganhou fôlego nos últimos dias após fazer
acordo com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que divulgou a
"Agenda País" e desviou o foco da turbulência e do ajuste fiscal. De
quebra, isolou o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).
Ao cumprir a estratégia para se
reaproximar dos eleitores perdidos, Dilma esteve no Maranhão e na Bahia, na
semana passada, para inaugurar obras. Não foi só: tomou café da manhã com
empresários, jantou com senadores aliados e integrantes do Judiciário e se reuniu
com movimentos sociais dois dias seguidos. Em conversas reservadas, ministros
afirmam que Dilma errou no passado ao não dialogar com os vários segmentos da
sociedade e também com aliados do PMDB. "Mas agora a ficha caiu",
constatou um de seus auxiliares.